domingo, 25 de janeiro de 2015

O que restou do que nunca existiu

Ensaio sobre o fato de eu não me lembrar dos seus detalhes


Audrey Hepburn (atriz). Infelizmente, desconheço o nome do fotógrafo.


Eu não me lembro mais dos seus detalhes. Sei que, um certo tempo, quando eu pensava em você, minha memória fazia um zoom em algum gesto seu que esqueci qual era. Talvez, um jeito no pescoço que ninguém mais, no mundo, fazia. Só você. Ou um movimento no cantinho da boca, bem na esquina do sorriso. Algo que, de tão seu, já acontecia involuntariamente. Mas, hoje tenho dúvidas se era isso mesmo.

Tinha todos esses detalhes catalogados na minha cabeça. E, no meu pensamento, seu retrato não era um corpo completo. Era um movimento escondido e tão discreto que só eu enxergava porque estava apaixonada.

Você é o passado de um presente que nunca existiu. Tão inexistente que nem sei bem o que eu não lembro mais a seu respeito.

Parece que era um andar meio pendente de uma lado para o outro, meio preguiçoso... Mas, já não posso garantir.

Queria escrever sobre seus detalhes. Isso faz tempo. Tinha muita coisa para dizer sobre eles. Guardei para depois. Um depois tão longe que o tema deixou de fazer sentido.

Sofro de um complexo sobre o qual Freud nunca falou. Complexo de sacralidade. Tudo tem que ser tão perfeito e tão sagrado que nunca acontece. Estou sempre esperando o momento certo, em que as palavras vão fluir facilmente porque meu cérebro vai conseguir decodificar a confusão de meus sentimentos absurdamente abstratos e de uma subjetividade tão forte que, normalmente, não descolam de mim.

Esperei esse momento sagrado para escrever sobre seus gestos, movimentos e detalhes. O momento chegou, hoje. Mas, chegou tarde. E o cenário mudou. Pensei que estava tudo, ainda, bem guardado, dentro de mim. Ia ser uma crônica linda. Um poema ou um ensaio, inspirado, sobre como eu via você quando estava apaixonada. Mas, esqueci os seus detalhes.

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