terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Por favor, me trate mal

Foto: Robert Doisneau


Queria, de uma vez, me decepcionar com você. Ser ferida e magoada. Conhecer seu lado desprezível e raso, inapropriado para mergulhos profundos. E presenciar sua estupidez. Mas você me trata tão bem, é tão cuidadoso com as palavras e quer sempre saber como estou... E demonstra saber meus gostos e se interessa por meus planos...

Difícil não gostar de você, que parece estar sempre informado por onde andei e o que fiz. E cada elogio seu...  se você soubesse (eu sei que sabe), na verdade, se você tivesse consciência, não o faria, nem perguntaria sobre o meu coração porque me acende uma faísca de esperança de que você quer saber se tem espaço para entrar nele.

Me trate mal, por favor. Ou me ignore. Ou faça a caridade de não me dar atenção completa e imediata e, ainda, cometa erros graves de gramática e concordância quando falar comigo. Quem sabe eu me curo de enxergar tanto encanto. Paro de achar que só daria certo com você, e que, nos outros, sempre vai faltar algo e vai ficar um vazio.

Então, num último (humano e consciente) gesto encantador, por favor, pare de ser, assim, tão legal comigo para que eu me cure, finalmente, de você.  

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