terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre a magia das casas sem tijolos



Foto: Danilo Conti


Hoje enquanto lia um livro, tive um flash de uma das mais fantásticas passagens da minha vida. Lembrei do dia que vi a finalização de uma casa. Não uma casa como a que eu morava, feita de tijolos, cimento e com paredes pintadas. Era uma casa de barro.

Devia ser um domingo de manhã e meus pais juntaram os 3 filhos e mais uma carrada de gente na boleia do caminhão. Rumamos para o mato. Não entendia como iam levantar uma casa em um único dia. Entendi menos ainda quando chegamos e vi uma cabana feita de varas de pau. Disseram que só faltava barro. Devia ser um tipo mágico de barro especial, só podia. Meu pai deixou a gente no sol quente e saiu com uma turma para ir buscar esse tal barro.

Que casa era essa que não tinha tijolos? A lógica não fechava na minha cabeça infantil. Entraria água pelas brechas ou um gatuno ia tirar as varas e entrar na pequena casa durante a noite. Minha mãe tentou explicar que quando jogassem o barro nas varas, ele ia endurecer e tudo se transformaria numa parede, dura e forte. Não me convenceu, desacreditava daquela história... Ladrão é esperto, viria com um balde d'água, desmanchava o barro da parede e roubava. Mal me toquei, naquela região alguém com um balde com água realizaria outras atividades muito mais essenciais.

Quando pai voltou com sua trupe, o caminhão estava carregado com barro vermelho. Diferente da frágil massa de lama utilizada em minhas brincadeiras na época. Na hora de "jogar o barro" nas paredes, não era bem arremessar, era rebocar mesmo, igual pedreiro. Assim, fui criticado por jogar uma mão de barro por minha conta. Ao menos assim me lembro. Deve ser mentira de minha memória, mas gosto de lembrar assim.

O sol começou a queimar minha moleira e desfaleci de cansaço, me levaram para uma casa vizinha. Ao acordar nem sinal da cabana de vara de pau, no lugar uma casinha de barro como várias outras conhecidas tanto do mato quanto das favelas de Salgueiro. Um marrom vermelho vivo que aos poucos vai parecendo morto por causa do sol.

Ainda há lembrança do cheiro de cachaça. Bebiam antes, durante e principalmente depois de bater o reboco.

Demorei muito tempo para entender aquilo... Na verdade, não entendo.

Rodolfo Nícolas é da Lagoa e recente colaborador do cerebro y tripas.

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