sábado, 6 de agosto de 2016

Pequenos momentos. Grandes recordações.

Aos pais que, ao lado dos filhos, constroem a própria história, conscientes de que tudo é transitório, menos o amor.  







Meu pai era o cara das azeitonas. Comia as que deixávamos no prato, sempre que a nossa refeição era uma pizza. Depois que ele se foi, uma azeitona dando sopa num prato vazio, tornou-se a materialização de sua ausência e, ao mesmo tempo, de sua presença forte na família.

Era, também, um contador de histórias. Muitas. Geralmente, quando voltava de algum encontro com os amigos e compadres de cachaça, trazia alguma informação engraçada ou inusitada. Aliás, quando o álcool chegava naquele grau de causar alegria e solidariedade fraterna, meu pai costumava arranjar padrinhos para os filhos. O problema é que éramos, apenas três e os amigos eram muitos. Sem contar que a mãe das crianças nunca era consultada.

Nos aniversários, costumávamos acordar ao som da sanfona. Mais ou menos às seis da manhã, ele entrava no quarto tocando e cantando parabéns. Tentei aprender, mas nunca entendi como sincronizar os 120 baixos (aqueles botõezinhos pretos), todos iguais, com o teclado e, ainda, abrir e fechar o fole. É necessário muita coordenação motora e os conhecimentos musicais dele eram totalmente instintivos para que pudesse me explicar essa dinâmica de uma forma didática. 

Tenho lembranças fantásticas da infância que, por mais que pareçam triviais, me causavam um sentimento muito bom e não lembro ter revivido algo parecido depois de adulta. Uma delas é saindo da igreja, com ele, para comprar um bombom que vinha com um anel de plástico de brinde.  Eu tinha de todas as cores. Ganhava um por domingo e aquilo era maravilhoso. Eu brincava de ser rica com uma jóia valiosa.

Meu pai também foi o dentista extra-oficial dos filhos. Ele tinha um certo prazer sádico em arrancar nossos dentes de leite. Pedia só para ver se já estavam moles o bastante e, aproveitava, e empurrava o dedão. E, acabou participando diretamente das nossas mudanças dos dentes. Hoje, as crianças colocam embaixo do travesseiro para a fada do dente levar e deixar, em troca, uma moeda. No meu tempo não tinha essa fantasia. Era quase uma cerimônia de iniciação tribal, com direito a uma espécie de ritual. Era para girar três vezes com o dente na mão dizendo 'morão morão, pegue seu dente podre e me dê o meu são' e, depois disso, jogá-lo no telhado de casa. Lembro como a cena de um filme.

Na minha infância, fomos muito parceiros, principalmente, nos sábados. Era um lazer, para mim, acordar de madrugada para ir fazer a feira de frutas e verduras no mercado público. Mainha ia colocando a mão na massa, escolhendo, contando, mandando pesar as coisas, enquanto eu e painho bebíamos um caldo de mocotó num restaurante bem popular. Eu era pequena, mas também era uma tracinha porque eu sempre repetia. Depois de adulta, cortei as carnes de gado da alimentação, mas quando lembro desse caldo e dos mocotós, num prato duralex colorido, tenho uma imensa sensação de prazer.   

Os cientistas dizem que somos constituídos de átomos. Mais que isso, nós somos feitos de histórias. E de história em história crescemos, viramos adultos e moldamos o nosso caráter. Uma presença paterna tem papel fundamental nesse processo. 

Aos pais-heróis, assim como o meu, que fazem com que o filho acredite que é o personagem principal desse enredo diário e que, naturalmente, revertem os pequenos momentos em maiores lembranças, deixo minha homenagem e carinho. 

Façam valer cada momento, escrevendo a história de vocês com muita consciência de que tudo é transitório, menos o amor.

Feliz Dia dos Pais!

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