quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Intimidade, segredos e sacralidade

Apesar dos facebooks e nudes, câmeras, celulares e Big Brothers, a privacidade, ainda, é um direito e não há prova de fineza e de carinho maior do que preservá-la no outro.



No filme O Leitor, a personagem Hannah Shmitz tem um segredo e o mais importante na sua vida é mantê-lo preservado. O jovem Micheal Berg, com quem teve um caso, descobre-o e enfrenta o impasse ético de revelá-lo ou não.

Quem ama não invade. O corpo, o pensamento e os desejos do outro são sagrados. O universo íntimo de cada um com os traumas, complexos e medos a cada um pertence. Portanto, só entre nesse terreno se for convidado e mesmo assim tire as sandálias em sinal de respeito. Nenhuma história de vida é igual. As experiências têm pesos e valores diferentes para cada um. E, na maioria das vezes, não temos ideia das dificuldades que a outra pessoa enfrentou, dos leões que ela mata todos os dias e das feridas que esconde. Então, é importante respeitar alguns silêncios, principalmente, se vierem de quem amamos, e compreender as escolhas de cada um, ainda, que pareçam fora de moda, excêntricas ou de mal gosto. Temos o péssimo hábito de tratar como comédia ou objeto de curiosidade o que pode ter um significado muito sério para alguém porque nos falta o tato de que o particular é sagrado. As senhas são sagradas, as conversas no whatsapp, os limites físicos e psicológicos; alguns segredos são sagrados. A obesidade, o botox, o rosto com acne, o emprego que o cara ainda não arranjou, o noivado que não vira casamento, o casal que não engravida, a vida sexual do vizinho... sagrado é o terreno sobre o qual não somos dignos de pisar. Indiscrições machucam. Ferem. Violentam psicologicamente. Apesar dos facebooks e nudes, câmeras, celulares e Big Brothers, a privacidade, ainda, é um direito e não há prova de fineza e de carinho maior do que preservá-la no outro. O mínimo que se pode fazer ao ser convidado para participar da intimidade de alguém é agradecer a confiança, sentir-se honrado e ser mais um a zelar pelo que lhe foi confiado.

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