quarta-feira, 3 de junho de 2015

Só vale a pena o que nos liberta




Comecei a escrever diários há uns 11 anos. Duas razões me moviam. Uma delas era guardar minha história, dali para frente, no papel, já que minha memória não é confiável. A outra era terapêutica. Colocar para fora o que me incomodava, materializar algumas questões e quem sabe suas respostas.

Diário não é literatura mas, talvez, por ser uma poesia bruta, impulsiva, em seu estado não civilizado, foi e continua sendo um instrumento bastante terapêutico. Libertador.

A palavra, várias vezes, me salvou e salva, por meio dos diários, da terapia, da poesia que me acompanha desde criança, dos livros que li e do jornalismo, que é meu ganha-pão.

Sinto-me, totalmente, contemplada por Eduardo Galeano quando ele fala que somos feitos de histórias e não de átomos, como dizem os cientistas. E qual é o cimento das histórias, senão a palavra?

Graças a Freud, temos a consciência do poder curativo das palavras. Ele desenvolveu o processo da cura, através da fala, a psicanálise.

Costumo ser socorrida pelas palavras. Outras pessoas encontram socorro nas pinturas, na música, no cinema, na fotografia, nos movimentos do corpo. Seja como artista ou público.

Sair de dentro da gente, por mais confuso que possa parecer, é curativo. E a arte possibilita esse transcender, esse ‘se reprojetar no mundo’.

Muitas obras artísticas estão cheias dos monstros e desejos sublimados dos seus autores. De suas dores e do seu desamor.

Não consigo enxergar arte onde não há sentimento. A técnica por si só, para mim, não produz arte. Técnica sem emoção é como um zumbi. Um corpo sem alma. Sem vida.

Meu conceito de arte é bem próximo dos conceitos de sensibilidade e sentimento. Claro, equacionados com a razão. ‘Cérebro e tripas’, citando, novamente, Eduardo Galeano.

Essa arte pura, virgem, é justamente o que nos salva. Da rotina sem brilho. Das angústias que o viver nos impõe. A arte nos salva das nossas limitações físicas e transporta nossa alma para onde o corpo jamais poderia alcançar.

Que a técnica não limite os voos da nossa alma. Que a estética não nos castre.

Que a ambição de ser arte não nos mecanize e não nos intimide de ousar transcender. 

Porque só vale a pena o que nos liberta.  



6 comentários:

  1. Teus textos são, por assim dizer, avassaladores. Redondo. Muito redundou. De uma precisão com a qual eu nunca poderei escrever. Se o que VC falou é verdade - só vale a pena o que nos liberta - ler teus textos me deixa lépida e incute, em mim, uma necessidade de sempre vir aqui, sorver da fonte. Texto libertador, Francesa.

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    1. Obrigada, Mari. Te ter como leitora é uma honra. Ter tua amizade é um privilégio. Te amo.

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  2. "Sair de dentro da gente, por mais confuso que possa parecer, é curativo. E a arte possibilita esse transcender, esse ‘se reprojetar no mundo’." Tão eu. Adorei o texto. Te amo!!

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    1. Somos nós..... Também te amo, Jana. Obrigada por tudo.

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  3. Tava precisando ler esse texto. Ele me encontrou. =)

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    1. Simão, que alegria você me traz com esse comentário.... Obrigada.

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