sábado, 10 de junho de 2017

Poema sem título

Um querer violento
Um querer mais
Um pedir mais
Do que já se tem
Do que já se é

E ao mesmo tempo
Um querer silêncio
Querer vazio
Um querer não querer
Um pedir ausentar-me

Com licença

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Intimidade, segredos e sacralidade

Apesar dos facebooks e nudes, câmeras, celulares e Big Brothers, a privacidade, ainda, é um direito e não há prova de fineza e de carinho maior do que preservá-la no outro.



No filme O Leitor, a personagem Hannah Shmitz tem um segredo e o mais importante na sua vida é mantê-lo preservado. O jovem Micheal Berg, com quem teve um caso, descobre-o e enfrenta o impasse ético de revelá-lo ou não.

Quem ama não invade. O corpo, o pensamento e os desejos do outro são sagrados. O universo íntimo de cada um com os traumas, complexos e medos a cada um pertence. Portanto, só entre nesse terreno se for convidado e mesmo assim tire as sandálias em sinal de respeito. Nenhuma história de vida é igual. As experiências têm pesos e valores diferentes para cada um. E, na maioria das vezes, não temos ideia das dificuldades que a outra pessoa enfrentou, dos leões que ela mata todos os dias e das feridas que esconde. Então, é importante respeitar alguns silêncios, principalmente, se vierem de quem amamos, e compreender as escolhas de cada um, ainda, que pareçam fora de moda, excêntricas ou de mal gosto. Temos o péssimo hábito de tratar como comédia ou objeto de curiosidade o que pode ter um significado muito sério para alguém porque nos falta o tato de que o particular é sagrado. As senhas são sagradas, as conversas no whatsapp, os limites físicos e psicológicos; alguns segredos são sagrados. A obesidade, o botox, o rosto com acne, o emprego que o cara ainda não arranjou, o noivado que não vira casamento, o casal que não engravida, a vida sexual do vizinho... sagrado é o terreno sobre o qual não somos dignos de pisar. Indiscrições machucam. Ferem. Violentam psicologicamente. Apesar dos facebooks e nudes, câmeras, celulares e Big Brothers, a privacidade, ainda, é um direito e não há prova de fineza e de carinho maior do que preservá-la no outro. O mínimo que se pode fazer ao ser convidado para participar da intimidade de alguém é agradecer a confiança, sentir-se honrado e ser mais um a zelar pelo que lhe foi confiado.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

pausas



um ser-abismo

abismais exílios

ausente de mim

distante dos outros

*

mulher hiato

pois intervalos de solidão

quase pontos-finais

intensos ponto-e-vírgulas

*

pausas

que eu não queria.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Praxe


(E agora?)




Ser 
ou
não ser
assim 
ou
assado
de praxe.
mas não sou
de praxe,
sou louca
de não ser louca
nesse mundo.
- quem é louco 
de não enlouquecer
nessa vida?
só um louco mesmo...
tentando
ser ou não ser
assim ou assado
um total disparate
porque em mim
nada se calcula
nem se confirma
e fico louca
aí me pergunto
e agora?
cheguei a esse ponto 
de um ‘e agora?’....
reticente 
bem no fim da poesia....
- ...........e agora?

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Exílio


silêncio
surdez
cegueira
a negação dos apetites

prá cá
prá lá
lugar algum
a negação da existência

ai de mim
nessa ilha desabitada
só do meu querer

ondas de palavras
sobre mim
e não me molham

a música do vai e vem
e não soam

indo e vindo
no mesmo espaço

assim, borbulha o mar
em que navega
a solidão do meu exílio

sábado, 6 de agosto de 2016

Pequenos momentos. Grandes recordações.

Aos pais que, ao lado dos filhos, constroem a própria história, conscientes de que tudo é transitório, menos o amor.  







Meu pai era o cara das azeitonas. Comia as que deixávamos no prato, sempre que a nossa refeição era uma pizza. Depois que ele se foi, uma azeitona dando sopa num prato vazio, tornou-se a materialização de sua ausência e, ao mesmo tempo, de sua presença forte na família.

Era, também, um contador de histórias. Muitas. Geralmente, quando voltava de algum encontro com os amigos e compadres de cachaça, trazia alguma informação engraçada ou inusitada. Aliás, quando o álcool chegava naquele grau de causar alegria e solidariedade fraterna, meu pai costumava arranjar padrinhos para os filhos. O problema é que éramos, apenas três e os amigos eram muitos. Sem contar que a mãe das crianças nunca era consultada.

Nos aniversários, costumávamos acordar ao som da sanfona. Mais ou menos às seis da manhã, ele entrava no quarto tocando e cantando parabéns. Tentei aprender, mas nunca entendi como sincronizar os 120 baixos (aqueles botõezinhos pretos), todos iguais, com o teclado e, ainda, abrir e fechar o fole. É necessário muita coordenação motora e os conhecimentos musicais dele eram totalmente instintivos para que pudesse me explicar essa dinâmica de uma forma didática. 

Tenho lembranças fantásticas da infância que, por mais que pareçam triviais, me causavam um sentimento muito bom e não lembro ter revivido algo parecido depois de adulta. Uma delas é saindo da igreja, com ele, para comprar um bombom que vinha com um anel de plástico de brinde.  Eu tinha de todas as cores. Ganhava um por domingo e aquilo era maravilhoso. Eu brincava de ser rica com uma jóia valiosa.

Meu pai também foi o dentista extra-oficial dos filhos. Ele tinha um certo prazer sádico em arrancar nossos dentes de leite. Pedia só para ver se já estavam moles o bastante e, aproveitava, e empurrava o dedão. E, acabou participando diretamente das nossas mudanças dos dentes. Hoje, as crianças colocam embaixo do travesseiro para a fada do dente levar e deixar, em troca, uma moeda. No meu tempo não tinha essa fantasia. Era quase uma cerimônia de iniciação tribal, com direito a uma espécie de ritual. Era para girar três vezes com o dente na mão dizendo 'morão morão, pegue seu dente podre e me dê o meu são' e, depois disso, jogá-lo no telhado de casa. Lembro como a cena de um filme.

Na minha infância, fomos muito parceiros, principalmente, nos sábados. Era um lazer, para mim, acordar de madrugada para ir fazer a feira de frutas e verduras no mercado público. Mainha ia colocando a mão na massa, escolhendo, contando, mandando pesar as coisas, enquanto eu e painho bebíamos um caldo de mocotó num restaurante bem popular. Eu era pequena, mas também era uma tracinha porque eu sempre repetia. Depois de adulta, cortei as carnes de gado da alimentação, mas quando lembro desse caldo e dos mocotós, num prato duralex colorido, tenho uma imensa sensação de prazer.   

Os cientistas dizem que somos constituídos de átomos. Mais que isso, nós somos feitos de histórias. E de história em história crescemos, viramos adultos e moldamos o nosso caráter. Uma presença paterna tem papel fundamental nesse processo. 

Aos pais-heróis, assim como o meu, que fazem com que o filho acredite que é o personagem principal desse enredo diário e que, naturalmente, revertem os pequenos momentos em maiores lembranças, deixo minha homenagem e carinho. 

Façam valer cada momento, escrevendo a história de vocês com muita consciência de que tudo é transitório, menos o amor.

Feliz Dia dos Pais!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Uma tortinha (ops... uma história) para ser deliciada com quem amamos



-- Fê,  tenho uma história para te contar! -- Fiz o convite à prima de nove anos. Gritei lá do quarto.
Alguns minutos depois chega ela serelepe: -- Quel, cadê a história?

E olhe que ela estava no sofá assistindo Netflix (o mundo, ainda, tem jeito...).

Pegou o tablet da minha mão e, encostadinha na cama, começou a ler a versão digital de A Bruxinha Roxa e A Besoura Beeze, escrito por Janine Henriques.

Me senti meio que deixada de lado. -- E não vai ler comigo, não? -- Perguntei surpresa. Ela respondeu com seu jeitinho bem prático de ser: --Tô lendo sozinha, na cabeça.

-- Fê,  esse livro não é para ser lido sozinho.

Inteligente como as crianças são, embora os adultos as subestimem, eu sabia que, durante a leitura, ela iria entender exatamente o que eu quis dizer.

Combinamos a leitura tipo jogral.  Ela lia um parágrafo, eu outro e, assim, compartilhamos a aventura da Bruxinha do bem que fazia lindas canções e que ficou doente por causa do comportamento impulsivo da sua melhor amiga, a Beeze.

Esse conto sobre amor e amizade é como a tortinha mágica feita pela Bruxinha, é para ser deliciada com as pessoas que amamos. Ele nos ensina que o individualismo nos adoece, mas, apesar de todas as dificuldades, é possível revertê-lo em encontro e parceria.

-- E aí, Fê?  Gostou?

-- Gostei, Quel.

-- E o livro fala sobre o quê? -- perguntei.

-- Uma besourinha comeu uma torta sozinha e a amiga perdeu a memória. Aí ela fez uma viagem pra tentar trazer a memória de volta.

Ela contou tudo com uma memoriazinha de elefante e fechou seu resumo, exatamente, com uma das últimas falas do livro -- 'Olhe pra o amor, olhe pra o amor.'

Fiquei até constrangida com a minha falta de atenção. Fui conferir no livro. De fato, era aquilo.

O amor ecoou nela bem mais forte do que em mim. 

A natureza infantil é assim, atenta e frutífera, propícia aos bons sentimentos. 

Eu achando que ia ensinar, acabei aprendendo. 

Por isso, recomendamos (eu e Fê) 'A Bruxinha Roxa e a Besoura Beeze em: a Bruxinha que perdeu a música por causa da Besoura'.

O livro foi lançado pelas editoras Amazon e Saraiva e pode ser adquirido virtualmente, impresso ou ebook, através das plataformas Create Space, Amazon.com, Amazon.com.br e Saraiva.com.

Desejamos uma boa experiência de afeto e aprendizado compartilhados.






segunda-feira, 25 de abril de 2016

Seis + dois é amor que basta

(Mais uma bela crônica da jornalista Sáride Maíta. Colaboradora do cerebro y tripas,  direto de São Luís - MA. )



Me ensinaram que pau que bate em Júlia bate em Pedro. Nunca fomos do tipo de passar mais de um dia sem brigar, mas não teve um só dia que - mesmo sem pedir desculpas verbal ou desmanchar a cara feia - tenhamos dormido sem ter amado um ao outro.

Nunca conheci amor mais verdadeiro. Sempre lá, sempre aqui, sempre em todo lugar. Passei a vida inteira vendo pessoas desesperadas para encontrar o amor de suas vidas. E embora tenho sofrido tantas outras na busca precoce e até desesperada pelo meu príncipe encantado, sempre soube que o grande amor da minha vida estava ao meu lado.

Trocamos beijos, abraços, carícias e desaforos. E recolher o orgulho nunca é tão gratificante do que quando, depois de uma briga intensa, a gente faz as pazes. Tem cheiro, olhar, mãos, palavras, vinho e desejo.

Foi um, somado a dois, mais dois e para continuar somando, mais um. Seis nunca foi uma conta fácil. E amar antes de qualquer coisa, a única regra. Coração que não cabe Luama, não cabe Luanda, nem Júlia, nem Pedro, nem Maria, nem Eu!

Sorriso, Tourão, Jububa, Pedão e Cu de Pinto. E o mais bonito é o amor. Cada um tem um jeito e ninguém escolheu ser diferente. O amor de tão livre ganhou o mundo, não coube dentro do peito. Somou mais dois por amor, não por piada. Primo galego com nome de rei é coisa farta!  Nunca conheci amor mais verdadeiro.

Já repartimos um ovo, disputamos corrida, cantamos ciranda, brincamos de pique esconde, choramos por meninos, por meninas e brindamos! Já encontramos o amor de nossas vidas. Não cabe amor, e se não cabe amor, Bebê, já não carece de caber sorriso.

terça-feira, 15 de março de 2016

Basta você, o resto é nada!

(Mais uma crônica inédita da jornalista, antes de tudo poetisa, Sáride Maíta, no cerebroytripas. Colaboradora do blog direto de São Luis do Maranhão.)

“Pies para que los quiero se tengo alas para volar”. Frida Kahlo


Não é o tempo, tão pouco os km, que separam a gente. Lembro o exato momento que o vi, pela primeira vez. Não fazia muito o meu estilo. E confesso em segredo que faz um pouco menos hoje em dia. Sabe aquele sorvete delicioso no meio da praça numa tarde de sol? Era de chocolate, sempre preferi morango. No bolo também, na bebida também, no desenho, na gelatina, no espetinho e na vida. Lembro o exato momento que provei um morango in natura a primeira vez. Recife, seis anos, uma enorme feira e eles lá, vermelhinhos na embalagem transparente, aguardando ansiosamente a minha chegada – sim, ainda escuto o que conversavam. A mão na barra de um vestido e o pedido “Vó, compra esse morango pra mim”. A recusa! Morango nunca foi muito barato e vivíamos tempos de um Brasil Azul e Amarelo - para comer morangos (a fruta mesmo), só tendo parentesco pelo menos de segundo grau com algum coronel ou sendo de uma família abastada, de nome e sem possibilidade de falência. Na minha mesa, banana, laranja, maçã, mamão, umbu, melancia, seriguela, manga e milho – quando era tempo de dona Diolinda colher do pé. A seca batia forte, sertanejo carecia ser criativo, mas morango mesmo só em mesa de rico. Insistente que sempre fui, não voltaria do Recife sem comer meus morangos. Era quase um dever cívico espalhar dentro de mim aquele aroma e perfume que exalava próximo à loja de tecidos. “Vó, só uma bandeja”. Um coração mole, morangos na sacola e um apartamento que nunca chegava. Até que azedou a alma. Não era doce como no biscoito, nem cremoso como no sorvete. Algumas horas depois ganhei mais duas unidades acompanhada de uma caixinha de creme de leite (que espécie de criança foi um adulto que compra, invés de um leite condensado, uma lata de creme de leite para uma criança comer morangos?). Minha primeira decepção amorosa foi aos seis anos de idade, não pude manifestar e tive que agradecer para manter a etiqueta. Tão cedo fui convidada a comer a fruta novamente – ao que recordo, pela escassez de recursos. Ainda teríamos uns 7 anos de FHC no poder, faltava tempo suficiente para morango caber na feira lá de casa. Comi. Gostei. Tinha um sabor cítrico ainda estranho, refrescante, agradável de morder era prazeroso sentir o líquido sendo esmagado pelos dentes, enchia boca e espirito. Um tipo de amor amadurecido. Não é o tempo que separa dois corações apaixonados. É o peso do amor que já não é, que transformou, que perdeu o desejo e, talvez por coragem ou aquele velho e necessário ‘um minuto de loucura’, tenha levantado da mesa para dar espaço a alegria. Ficou vazia, o vazio causa estranheza, a estranheza carrega certa tristeza e “ninguém é feliz sozinho”. Bom mesmo é ser infeliz em casal, assim você tem em que colocar a culpa pelas suas frustrações com a desculpa covarde do “ter alguém para apoiar, para cuidar”. Virou babar, pessoa? Recebe quanto para ser apoio porque a essa altura o ‘pagamento em sexo’ já não tá compensando. Final do dia, o abrir da porta, dois pratos na mesa, as latidas do cachorro, a sirene do forno, um beijo na sala. Ei, não quer dizer que tem amor na mesa. Nem que a vida deve parar porque suas noites estão livres e prontas para serem vividas. Cooorre, criatura, enche o copo, compra passagens, arruma a mochila. Vai viver! Não é o tempo, nem a quilometragem, que separa a gente. Mas sim o peso do amadurecimento. É mais que mais de 10 anos. As torres gêmeas, as sucessivas enchentes no sudeste, a crise mundial, a fome, dois papas, a eleição do primeiro governador comunista do Brasil, a queda da família Sarney, a crise econômica no Brasil, aplicativos de paquera, coreografia para passeata, os protestos da elite burguesa e eu, que amei o mundo inteiro, nunca consegui esquecer o menino que era para mim como um sorvete de chocolate. A cabeça emudece ao tentar encontrar uma resposta feita e não repetitiva. O tempo passa! O menino cresceu. Tirou outra menina para dançar ciranda. Acomodou. Petrificou. Morreu. E você continua viva, as companhia aéreas oferecem ótimas promoções e o mundo é grande. Falta apenas a coragem na mochila para ser feliz. Você não precisa da autorização de ninguém. Basta você!

segunda-feira, 7 de março de 2016

O Maquinista

Cena do filme Conta Comigo (Stand by Me), de 1986.


Em Salgueiro de frente para o saudoso número 222 da Francisco Correia passa uma linha férrea. Num passado recente, importantíssimo ponto de referência em épocas sem GPS ou Google Maps. A linha do trem era um caminho de aventuras estilo Conta Comigo, quando a seguíamos não para encontrar adolescentes mortos, mas carcaças de boi e fetos. Soltar pipa. Às vezes um simples descarrego de nossa selvageria infantil.

Esses dias descobri um colega de sala que, vejam vocês, já foi maquinista de trem. Falou das dificuldades de pilotar um trem mecânico e controlar sua cauda entre outras coisas. Lembrei d’uma das muitas ocasiões onde o trem foi o maior evento n’uma ensolarada manhã dominical, na nem sempre tão pacata Francisco Correia.

Como de costume, ao menor sinal da chegada daquele boitatá de metal, tudo se alvoroçava. Cachorro corria. Famílias nas portas e janelas. As crianças... ah as crianças. A gente enlouquecia! Colocávamos nos trilhos garrafas para fazer cerol, parafusos que esmagados se convertiam em serras, pedras a serem lançadas aleatoriamente após contato com a roda do trem. Por fim, como guiados por um transe da ira, jogávamos tudo pelo nosso caminho nos vagões que passavam. Latas, pedras, garrafas, terra, madeira, tudo possível de ser arremessado.

Nessa manhã em especial a ferocidade parecia acentuada. A preferencia por tijolos de barro e paralelepípedos era clara. Talvez o barulho fosse mais bonito, mais afinado, não sei. Booooom. Booom. Pegando todos de surpresa o trem foi parando e às pedras também. A sinfonia chegou ao fim. Desceu um homem da cabine. Olhava ao redor. Procurava algo e logo escolheu um rumo. Atravessou a rua. Não lembro o rosto dele. Usava barba e vestia azul? Talvez nem tenha existido. Não falou com ninguém. Medo no ar... Chamaria a polícia? Caminhava a passo firme. Entrou no bar de Zezinha tomou duas lapadas de cana. Puras e quentes, como cachaça deve ser tomada. Com o mesmo ímpeto inabalável voltou para o trem e sumiu.

Por Rodolfo Nícolas

quarta-feira, 2 de março de 2016

Não te demores

(Temos a honra de publicar pela primeira vez uma crônica inédita da jornalista, antes de tudo poetisa e cronista, Sáride Maíta, a mais afetiva aquisição do cerebro y tripas. Que seja o início de uma série de lindos e sensíveis tratados sobre a vida e o amor. Colaboradora do blog direto de São Luis do Maranhão.)


Donde no puedas amar, no te demores - Frida Kahlo


O que mais dói quando um amor adormece é desfazer as malas, recolher as lembranças e tentar encontrar outro amor o mais rápido possível e a qualquer custo. A busca desesperada para encontrar onde vocês se perderam e as frequentes indagações de “por que”, “pra quê” ou “como foi” que aquele último dia começou, costuma ser sufocante e recorrente. Até que, na pressão, todos os calmantes perdem o efeito e você vai se entupir de doce na padaria ao lado. Fim de linha quando o fatal derradeiro era apenas o começo. “Não, tá errado. Não se despeça!”

Um “até breve” que nunca chega e amores que nunca acabam. A pior zoada é o silêncio. O que mais dói quando um sentimento adormece, quando amor vai embora ou alguém se despede, é o silêncio. Todos os pensamentos resolvem fazer digestão ao mesmo tempo. É uma diarreia de sentimentos. Não, não tome soro caseiro, imosec ou qualquer outro indicado. Nunca funciona! O silêncio continua gritando, ferindo sua alma. Ainda é o silêncio!

Chore! Grite! Pule! Brigue com o Deus, com a Deusa, com os filhos de Ogum. Depois, trave sua guerra contra o mundo. Ofenda o vento. Solte seus demônios. Aqui vale tudo, exceto permanecer onde não há amor. Ninas, Marias, Espancas, Júlias, Sabrinas, Olgas, Fridas, Severinas, Anas, Franciscas, Catarinas, Simones, Lourdinhas! Foram tantas e só por uma boca. Foram tantas e com gestos minúsculos. Elas mudaram uma fatia social do seu mundo pessoal. Algumas com a vida, outras com - ou sem - regras de etiqueta. E agora, “você tem que aprender a levantar-se da mesa quando o amor não está mais sendo servido”.

Esse é o ano da bicicleta! Pra quê guardar amores pela metade, amores falidos, desfalecidos ou desamores embebecidos? “Doeu!” Dói mesmo. Mas permanecer machuca até matar. Mata a alma! E eu só quero só quero viver. Você só quer viver! A gente marcou um encontro. Sem data, sem horário e o local ficou um tanto quanto indefinido. “Espero que sua vida seja linda até lá”. Uma sala, uma TV, quatro pernas e um fim de semana. Nada nosso! É só a vida desenhando o texto, feito rio que ‘sarra’ pedras. Corre solto.

Por Sáride Maíta

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Por que Deus criou o Carnaval


O Carnaval do professor João Carlos que não teve quarta-feira de cinzas. Ao seu lado, a esposa Alenita,  companheira de bailes, fantasias e 'palhaçadas'.



Deus teve pena do ser humano e viu que estava sendo muito severo. Foi, então, que decidiu criar o Carnaval.

Disse o Senhor: "O fardo é pesado. A luta é incessante. Permiti que minha melhor obra padecesse das dores do mundo. Vou criar a mais doce ilusão de felicidade para sempre, durante quatro dias".

E Ele nos deu essa colher de chá e, com ela, o desejo frustrado de que os outros 361 dias do ano sejam de mais sorrisos e o mundo seja mais leve e o ser humano menos limitado.

Nesse período do ano, Deus é até mais condescendente com o pecado e dá uma espécie de green card à humanidade.

No fundo, Ele reconhece que, por algum erro de fabricação, a violação dos interditos é a natureza mais intrínseca de sua criação.

Sempre foi, desde que Adão e Eva comeram a maçã da árvore do conhecimento. Por isso, Ele faz vista grossa.

Conheci a história de um senhor que morreu vestido de palhaço,  num baile de Carnaval. Bem no meio do salão. Sem grito, sem dor, entre confetes,  paetês, lantejoulas e purpurina.

Encerrou da melhor forma possível uma trajetória de muitos Carnavais, fantasias e brincadeiras.

Creio que Deus gostava muito desse homem. Mas, muito mesmo porque lhe presenteou com um Carnaval sem o duro retorno à realidade da quarta-feira.

Cara de sorte esse.

Para os demais que não gozamos do privilégio de ter caído na simpatia do Criador, só resta nos conformar com as cinzas e nos agarrar à expectativa do próximo Carnaval e, mais uma vez, varrermos o peso da existência para debaixo do tapete e sermos, provisoriamente, felizes para sempre.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

2016 sem listas


Infelizmente não encontrei o autor dessa imagem. Caso alguém conheça, fico agradecida pela informação.


Em 2015, cheguei o mais próximo do que se pode chamar de estabilidade emocional.

O gráfico do meu humor teve menos curvas descendentes e desenvolvi um pouco da habilidade de racionalizar pensamentos disfuncionais, o que não significa ter sido um ano mamão com açúcar.

Fui obrigada a reencarar alguns conflitos adormecidos sobre a morte e o sentido disso tudo, ou, mais precisamente, a falta de sentido, e a fragilidade da vida.

Repensei o sonho de ser mãe biológica. Esse mundo é muito louco e cruel e, talvez, não seja um bom negócio colocar mais um ser humano nessa roleta russa.

Por enquanto, meu único filho é um vira-lata extremamente carente que faz de tudo para chamar minha atenção e que, nesse calor de 40 graus, só bebe água gelada.

Ele tem me ensinado muitas coisas sobre amar e ser amado e sobre a responsabilidade que temos com aqueles a quem cativamos.

Em 2015, viajei e retornei para casa com a sensação que o melhor dos lugares não são os pontos turísticos, mas, sim, as pessoas.

Apesar das diferenças históricas, culturais e linguísticas, o ser humano, em qualquer lugar do mundo, é feito do mesmo barro e sua inclinação primeira é para a solidariedade.

Explorei pessoas. Esse ano, atravessei o continente e fui até o pacífico para desbravar gente. Explorei estranhos. Confiei em desconhecidos. E vale a pena correr o risco.

E como a gente não pode parar o carro para trocar o pneu, em meio a todas essas coisas, eu registrava pensamentos, mentalmente ou por escrito, tentando gerenciar sentimentos ruins.

Para essa batalha diária, que me acompanha desde a infância, encontrei uma aliada, a terapia cognitivo-comportamental.

Eu que, antes, acreditava na intocabilidade da psicanálise, expandi horizontes, testei e me surpreendi.

Em 2016, quero mapear todos os pensamentos ruins para reestruturá-los. Quero cruzar o oceano mais uma vez, mergulhar nas pessoas e provar novos sabores mesmo que eu aumente (mais ainda) de peso.

Fora isso, não tem lista. Não garanto que serei mais forte do que tenho sido, nem que vou me amar mais do que consegui até hoje. Não prometo acreditar em mim muito além do que acredito. Nem emagrecer os dez quilos que tanto quero perder ou fazer uma tatuagem.

Inevitavelmente, a roda vai girar ainda que, em alguns momentos, eu deseje uma pausa para respirar e recomeçar.

Tentarei não refletir muito sobre rodas, moinhos, manivelas e muídos e me inspirar nos 'lírios...

...que não fiam, nem tecem. E nos pássaros que não semeiam, não colhem e nem armazenam em celeiros'.

E se Deus quiser me surpreender com bons presentes, eu até acho que mereço, vai ser muito bom.

Mas não vou esperar pelo que está além do meu domínio. E pensando bem, o que está sob o domínio da gente é muito pouco.

Então, que 2016 venha sem ansiedade.

Com leveza e desprendimento.

O resto é ilusão.


domingo, 13 de dezembro de 2015

Tem mais chances de ser amado quem pede amor

Yusuke com as patinhas na parede do jardim pedindo carinho - Foto: Raquel Rocha

Esses olhinhos pidões me conquistaram. Foto: Rafael Rocha


Eu achava que amor, carinho e atenção só valiam se fossem espontâneos. Sempre achei que essas eram coisas que não se pedia. Tenho revisitado essa concepção dentro mim e, confesso, tenho flertado com a possibilidade de que o amor, fruto de uma cobrança sóbria, também,  pode ser real.

Não estou generalizando. Em muitos casos, o outro vai responder com um 'eu te amo' robótico para cumprir tabela e evitar discutir a relação, mas em outras situações vale levar em conta o ditado popular 'quem não chora não mama'.

Durante muito tempo, mantive na porta do meu guarda-roupa uma frase que tirei do livro 'Mulheres que Correm com os Lobos' (Ah, esse livro... sempre esse livro): 'Quem não sabe uivar nunca encontrará sua matilha'.

Tenho uivado muito pouco. Na verdade, tenho me deixado dominar por um silêncio assustador.

Yusuke me trouxe essa questão do uivo de volta. Literalmente. E me mostrou que, às vezes, é preciso gritar para mostrar que você existe e que quer amor.

E que vale a pena pendurar as patas na grade do jardim com uma bolinha na boca,  fazendo olhinho de pidão e chamando para brincar.

E arranhar a porta da cozinha pedindo para entrar.

Meu vira-latas é um pedido ambulante de carinho e o que ele tem de mim foi fruto de muita conquista. De muito latido, uivo e rosnados. De um olhar castanho sempre cristalino, puro e inocente, cheio de amor, verdade e nenhum pingo de orgulho.

Sem pretensão alguma, em sua inocente sapiência, meu cãozinho me ensinou, na prática, que tenho uma enorme responsabilidade com aqueles que cativei. Me mostrou, também, que carinho se conquista e que tem mais chances de ser amado quem pede amor.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Por que escrevo?

Skeeter, personagem do filme Histórias Cruzadas (2011). Além da sensibilidade e do senso de justiça, a escrita era tudo o que ela tinha.
  

Escrevo para amenizar a solidão. Chego às pessoas, se elas me leem, e elas chegam a mim. E se a solidão for tão grande, a ponto de eu duvidar se realmente existo, escrever recupera em mim a consciência de existir.

E, embora pareça paradoxal, escrevo para preservar a solidão. Para cultuar o meu sagrado louco e desequilibrado. O que eu sou secretamente, o que sou sem os códigos sociais e julgamentos.

Às vezes, escrevo para me sentir amada [quando eu mesma não me amo], na esperança de cativar as pessoas e receber delas o que eu não sei bem como dar a mim mesma.

E para me sentir bonita. A dança das palavras, o ritmo das frases e dos versos, neles me projeto melhor e com mais charme porque são o meu real terreno. Porque tudo pode ser lindo, no que se escreve com a alma. A dor, a melancolia, a angústia, tudo.

É certo que não escrevo para me imortalizar. Se me exponho, se entro em crise a respeito dos o quês, porquês e para quens da escrita, sobre o valor disso é porque quero a consciência que existo, no hoje. Só isso me interessa. Acordar do pessimismo e do desamor e participar um pouco da vida.